O texto da curadora Mercedes Casanegra

À direita da foto Mercedes Casanegra, curadora da exposição O Pássaro Observador, de Ileana Hochmann no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, Argentina

Mercedes Casanegra (à dir.), curadora da exposição O Pássaro Observador, de Ileana Hochmann no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, Argentina.

O Nomadismo, as viagens de Ileana Hochman.

Navegações, pelo mar –Rio de Janeiro–, pelo rio –Rio de la Plata–, travessias, traslados, procuras; imagens de sítios milenares. O trabalho de arte de Ileana Hochman, –gravura, impressões sobre fotografia, imagem digital–, a escolha de seus papéis garimpados como tapetes orientais e um conhecimento magistral da técnica e linguagem escolhida.

Temos comentado seu afã por um nomadismo através da história, Roma, Pompéia, Buenos Aires e Rio de Janeiro. A distante Odessa de onde chegaram seus avós. Passado e presente, nessa incessante busca, a obra é sempre ponto de chegada da artista, ao mesmo tempo sempre pronta para partir novamente, o registro permanece. Ainda que as cidades da sua vida terem sido Buenos Aires — nascimento e retorno ainda recente — e Rio de Janeiro, o lugar que influenciou e moldou seu espírito e que foi a ponte em direção ao seu desenvolvimento como artista, Ileana se sente cidadã da história do mundo. A senha é a viagem.

Há pouco tempo encontrou o pássaro, não um qualquer, e o transformou em carimbo. Essa unidade hieroglífica, –escritura sagrada— , o pássaro, pode ser o que sinaliza o Aleph no alfabeto semítico e a a espanhola, ou seja, o início, ou a reiterada volta ao início. Mas também encontrou o pássaro com as patas atoladas na areia.

Na recoleta (claustro/retiro) sala do Centro Cultural Recoleta o espectador está rodeado das imagens impressas em refinados papéis, fotos de Davy Alexandrisky, os vazios das ruínas, os carimbos brancos e pretos, o mar e o rio. E, o som forte, inquietante, do bater de asas de um pássaro. Desta vez é o pássaro das patas atoladas na areia barrenta, que mexe as asas, mas não pode voar. Perguntamos-nos se trata-se de um trabalho iniciático.

Barro e asas. A ousadia de Ileana não é pequena e ela o confessa. Ela tem um ideal que só uma imagem poética poderia nomear. Mar, rio. Patas no barro e também cais, invisível, de onde sempre se parte. Seu desejo escolhe como ideal inalcançável o Cais Absoluto nomeado pelo poeta.

Fernando Pessoa fala do cais e do Cais. E, do fundo do seu coração, Ileana concorda.

Mercedes Casanegra
Lic. en Historia del arte (UBA)
Miembro AACA

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